sábado, 18 de novembro de 2017

Alpha Blondy na Bahia 2017. Memória da sua presença entre nós. Hoje República do Reggae.

ALPHA BLONDY
DEUS
Em 1986 na cidade sagrada de Uidah no Benin antigo Daomé, encontrei numa feira, um vendedor de fitas e discos, com uma fita cuja capa trazia uma foto de Alpha Blondy sentado sobre um vasilhame de óleo, e com a inscrição “Apartheid is Nazismo “ . Começava ali o namoro do Olodum com a melhor parte da música africana, a moderna  e combativa música do começo do mundo, da ancestralidade africana, aos delírios dos jovens urbanos de Lago, Cotonu, Luanda, Brazzaville, as metrópoles coloniais das potências européias.
Vim da África com a música de Alpha Blondy na bagagem, mostrei animado a algumas pessoas no Olodum, e logo elas viraram a cara, não era o som de Bob  Marley, não era a música axé da Bahia, nem era a música light dos americanos, era o reggae pesado da denuncia, da militância negra, da anti-violência, era o chamado das consciências adormecidas. Apesar do desinteresse inicial continuei insistindo para que as pessoas do Olodum e a negritude baiana escutassem este fenomeno africano musical. Tocamos Alpha Blondy nos programas de rádios em Salvador, na Casa de Olodum.
Voltei á África á Angola e ao Senegal e lá estava, cada vez mais, a presença de Alpha Blondy, novos discos, novos hits, sendo em 1988 um grande sucesso, “ Jerusalém “,  uma música celestial que chamava Árabes e Judeus, para a paz, e parar com a Guerra, gravado com a banda de Bob Marley - The Waileres, e aos poucos o reggae de Alpha Blondy foi conquistando os corações mais duros, e penetrando na alma de todos os povos, fazendo dançar e descobrir a nova consciência negra, e humana.
Os seus shows no mundo inteiro são símbolos de sucesso e êxtase. O disco live gravado ao vivo em Paris, no Zenith, é um encontro das forças cósmicas, com a alegria  de viver. Alpha Blondy tem 41 anos e nasceu na Costa do Marfim, antiga Costa dos Escravos. Viveu em New York, e tem como base de atuação a cidade de Paris na França. Alpha Blondy tem muito em comum com o Olodum , a luta política por um mundo melhor, a dureza da música militante, o apego a modernidade africanista, a valorização da história e da identidade negra, e a mesma facilidade de despertar raiva nos racistas que não desejam ver os negros vivendo em um mundo melhor. 
Até os atentados a bala, são comuns a Alpha Blondy e ao Olodum. As cores da libertação africana, a mistura da fé islâmica, com o rastafarianismo, as religiões tradicionais africanas misturam-se em liqüidificador ecumênico, o gesto ousado, a palavra afiada, a música dilacerante,  contribui para a elevação espiritual de milhões de pessoas em todo o Mundo, que se libertam da inconsciência, e da opressão.
É por estes motivos que temos o maior orgulho de receber na Casa do Olodum, uma das mais importantes personalidades da África viva, que é Alpha Blondy. A Casa do Olodum, um poderoso símbolo da cultura Afro-Brasileira, vai estar radiante como o Sol, quando o cometa Alpha Blondy estiver dando os primeiros passos nas escadas para o Auditório Nelsom Mandela.   A mesma Casa que já recebeu Linton Kewsi Jonhsom, Mutabaruka, Jymmy Cliff, Paul Simon. O mesmo grupo que já recepcionou o Bispo Desmond Tutu, que já recepcionou Nelsom Mandela terá agora a honra de receber um irmão da luta, e da dignidade.
A Bahia que há tanto tempo não recebe personalidades mundiais, escondida no próprio umbigo. A Bahia será momentaneamente a Tróia Negra, a Roma negra, a Jerusalém negra, a capital espiritual e civilizatória dos dois bilhões de africanos dispersos pelo novo mundo e pelo velho mundo. Que bom que a unha de Deus está de volta, e vai passar por aqui, para iluminar as nossas cabeças, e os nossos corações.

Do Livro Olodum Estrada da Paixão 1996. 

João Jorge – 
Presidente do Olodum.




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